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O repositório número 1 do GitHub desmonta qualquer app. Até onde dá pra ir com isso?

O REA e como ele funciona por dentro, os 13 apps Craft que recriam Adobe, Office e Figma do zero, 40 anos de sala limpa, a linha legal aqui e lá fora e o "clone da Netflix" que passou do ponto. Com o guia do que fazer e do que não fazer, na minha opinião.

Um repositório de graça chegou ao topo do GitHub com uma promessa só: fazer a engenharia reversa de qualquer aplicativo ou sistema pra você usar de referência.

E nas mesmas duas semanas apareceu um time recriando Photoshop, Premiere, Excel e Figma do zero, de graça, e um site com cara de Netflix que juntou filme, série e anime num lugar só. Aí a internet se dividiu. Metade gritando que é o futuro, metade gritando que é plágio.

Eu tenho uma opinião bem clara sobre isso, e ela cabe numa comparação de escola. Se você pegava o trabalho do coleguinha e copiava igual, era plágio. Se você pega uma coisa, recria e traz o seu tempero, algo que muda a plataforma e deixa ela diferente, isso pra mim é recriação. Um remix, como se fala muito na música eletrônica.

Nesta edição eu e a IA destrinchamos tudo: o que é a ferramenta e como ela funciona por dentro, os casos oficiais, os 13 apps Craft um por um, de onde vem essa história de recriar software (spoiler: dos anos 80), onde está a linha legal aqui e lá fora, o caso que passou do ponto e, no fim, o guia do que eu acho que você deve e não deve fazer, com o passo a passo pra instalar.

O que é o REA

REA vem de Reverse Engineer Anything, engenharia reversa de qualquer coisa. Ele é um MCP, aquele plugue que conecta a sua IA a ferramentas de fora. Você instala, ele se conecta no Claude Code, no Codex, no Cursor e em mais de vinte agentes, e a partir daí a sua IA ganha ferramentas pra abrir um aplicativo por dentro, mesmo sem ter o código-fonte dele.

O exemplo que está no próprio LEIA-ME é exatamente o uso que eu defendo. Você pede pra sua IA entender como funciona a busca de um app de notas, mostrar a evidência e construir uma função parecida pro seu projeto. Ela investiga, te explica o mecanismo, mostra de onde tirou cada conclusão e aí constrói a sua versão.

O repositório existe desde abril, mas a explosão foi agora. Hoje, 15 de outubro, ele tem 257 mil estrelas e 64,6 mil cópias, está em primeiro lugar no Trending do GitHub no ranking do dia e no da semana, e só nos últimos sete dias ganhou 214.837 estrelas. É de graça e de código aberto.

A página do REA no GitHub, com 257 mil estrelas e 64,6 mil forks. Print sem tradução. Fonte: github.com/morluto/rea, 15/10/2026.
A página do REA no GitHub, com 257 mil estrelas e 64,6 mil forks. Print sem tradução. Fonte: github.com/morluto/rea, 15/10/2026.
O REA em primeiro no Trending do GitHub, com 32.282 estrelas só no dia na hora do print. Print sem tradução. Fonte: github.com/trending, 15/10/2026.
O REA em primeiro no Trending do GitHub, com 32.282 estrelas só no dia na hora do print. Print sem tradução. Fonte: github.com/trending, 15/10/2026.

Como ele funciona por dentro

O site oficial tem versão em português e resume o processo em três passos. Você faz uma pergunta sobre uma função e entrega o programa ou a página. O REA examina o programa e devolve código, referências e o que observou com ele rodando. E a sua IA usa essas descobertas pra te explicar a função ou recriar ela.

Os três passos do REA: pergunte sobre uma função, examine o programa, entenda e experimente uma mudança. Print da versão em português do site oficial. Fonte: rea.tools/pt-BR, 15/10/2026.
Os três passos do REA: pergunte sobre uma função, examine o programa, entenda e experimente uma mudança. Print da versão em português do site oficial. Fonte: rea.tools/pt-BR, 15/10/2026.

Pensa comigo: o REA não pensa sozinho. Quem pensa é a sua IA. O REA é a caixa de ferramentas que ela não tinha. E ele trabalha em três frentes:

  • O programa por dentro, em código de máquina. É o arquivo que roda no seu computador, aquele que ninguém consegue ler a olho nu. Aqui o REA usa programas especializados que já existem no mercado, como o Ghidra, que é gratuito, o Hopper e o IDA, e devolve uma versão legível do que o programa faz.
  • O aplicativo empacotado. Muito app de computador hoje é, por baixo, um site embrulhado, como o Notion. Nesse caso o REA lê os arquivos do app e mapeia as partes, como elas conversam entre si e onde cada coisa acontece. Também abre app de Android e programa feito em .NET.
  • O comportamento com ele rodando. Num site, o REA abre o navegador, observa o que a página carrega e os pedidos que ela faz pela internet. Ele também lê gravações de tráfego de rede e acompanha um programa rodando no terminal.

Junto com o plugue, a instalação coloca uma skill de investigação, que é o passo a passo que a IA segue pra investigar sem se perder. E cada conclusão vem com a evidência e com o que ainda não se sabe. O REA mostra a prova e deixa claro o que é certeza e o que é suposição.

Dois detalhes importantes. A análise roda na sua máquina, o app não sobe pra lugar nenhum. Mas o resultado vai pra sua IA, e o provedor do modelo tem a política de dados dele. E o próprio projeto avisa que descompilação e reconstrução com IA podem sair incompletas ou erradas, então resultado importante você confere antes de confiar.

O exemplo do jogo do dinossauro do Chrome: a pergunta, a regra de velocidade encontrada e o minijogo recriado com controle de velocidade. Print da versão em português do site oficial. Fonte: rea.tools/pt-BR, 15/10/2026.
O exemplo do jogo do dinossauro do Chrome: a pergunta, a regra de velocidade encontrada e o minijogo recriado com controle de velocidade. Print da versão em português do site oficial. Fonte: rea.tools/pt-BR, 15/10/2026.

O exemplo da home é ótimo pra entender. A pergunta é por que o dinossauro do Chrome fica mais rápido. A IA lê o código do jogo rodando e acha a regra: a velocidade começa em 6 e sobe um pouquinho a cada atualização até chegar em 13. Com a regra em mãos, eles recriaram um minijogo com um controle de velocidade que o original não tem. Isso é remix na prática.

Os casos oficiais

O time do REA publica estudos de caso completos, com código, números e resultado verificado. São cinco, mais dois exemplos na home:

  • Aegis (app de Android): como um app autenticador gera o código de seis dígitos e por que ele muda a cada 30 segundos.
  • Desafio de CTF: um desafio de competição de segurança, em que as checagens do programa viraram equações e a resposta foi conferida no programa original, que devolveu "Correct!".
  • DX-Ball (jogo de Windows de 1996): o cálculo que decide de que lado da caixa de som sai o barulho da bolinha. A versão reconstruída bateu com o original em 3.205 casos testados e reproduziu todos os 63 bytes da função original.
  • Notion (app de computador): como o Notion copia texto e formatação pra área de transferência, passo a passo, da tela até o sistema.
  • TH04 (jogo de PC-98, da era do DOS): como o jogo calcula o anel de balas mirado no jogador, recuperado de um código de 16 bits.
  • Calculadora do Windows: por que 200 + 10% dá 220. A regra recuperada: depois do +, o botão % pega a porcentagem do primeiro número.
  • Dinossauro do Chrome: a regra da velocidade, que virou um minijogo novo.
A página de estudos de caso do REA, com o Aegis e o desafio de CTF no topo. Print da versão em português do site oficial. Fonte: rea.tools/pt-BR/showcase, 15/10/2026.
A página de estudos de caso do REA, com o Aegis e o desafio de CTF no topo. Print da versão em português do site oficial. Fonte: rea.tools/pt-BR/showcase, 15/10/2026.

O exemplo do Notion é o meu ponto

Repara no que está sendo levado pra casa em todos esses casos. É o entendimento de uma mecânica: como o código de login é calculado, como o som muda de lado, como o Notion copia um bloco. Ninguém ali pegou o Notion inteiro e colocou no mercado com outro nome.

E é aqui que mora a diferença toda. Você não vai lá recriar o Notion e lançar ele exatamente da mesma forma. O que faz sentido é entender como ele resolve uma coisa e lançar, por exemplo, um Notion de uma forma completamente diferente, que seja atrativa por si só.

Isso não começou com IA

Recriar um software sem copiar o código dele é uma história de mais de 40 anos. E os casos famosos mostram exatamente a linha que eu defendo.

Compaq e o computador da IBM (1982 a 1983). O IBM PC dependia de um programa interno, o BIOS, que era da IBM. Pra fazer um computador compatível sem copiar esse código, a Compaq recriou o BIOS do zero, num processo que, segundo a história da empresa, custou cerca de 1 milhão de dólares. O Compaq Portable começou a ser vendido em março de 1983 e ajudou a abrir a indústria dos computadores compatíveis.

Phoenix (1984). A Phoenix transformou isso em produto e documentou o método que ficou famoso: duas equipes separadas. Uma estudava o BIOS da IBM e escrevia só a descrição do que ele fazia. A outra, formada por gente que nunca tinha visto o código da IBM, programava a partir dessa descrição. O BIOS da Phoenix foi licenciado pra outros fabricantes e abriu caminho pra uma enxurrada de clones.

Esse método tem nome: clean room, sala limpa. Você descreve o comportamento olhando de fora e constrói do zero, sem encostar no código do original.

Samba (1992). Andrew Tridgell, estudante de doutorado na Austrália, queria que computadores Unix conversassem com a rede de arquivos do Windows. Ele observou o tráfego da rede e recriou o protocolo. Anos depois, em 2004, a Comissão Europeia multou a Microsoft e mandou ela documentar esses protocolos pra concorrência, e em 2007 a fundação ligada ao Samba fechou um acordo e recebeu a documentação oficial por um pagamento único de 10 mil euros.

Wine (desde 1993). O Wine faz programa de Windows rodar em Linux e Mac, reimplementando o Windows pedaço por pedaço. As regras de sala limpa deles são duras: nada de desmontar código da Microsoft, nada de olhar código-fonte da Microsoft mesmo que ele esteja público, e o caminho seguro é escrever um teste que confere como o Windows se comporta. E tem uma regra que conversa direto com esta edição: o Wine proíbe usar IA pra gerar código.

OpenOffice e o .doc. O formato dos arquivos do Word foi descoberto na base da engenharia reversa por quem fazia os concorrentes, até que em fevereiro de 2008 a Microsoft publicou as especificações dos formatos .doc, .xls e .ppt com a promessa de não processar quem usasse. O programador Joel Spolsky escreveu na época que a especificação do Excel tinha 349 páginas.

A régua é a mesma há 40 anos: estudar o comportamento pode, copiar o código não. A IA só deixou isso rápido e barato.

Os apps Craft: o caso que mais rodou

O time do ArtCraft, que desde 2022 faz um estúdio de código aberto pra criar imagem e vídeo com IA, soltou os Crafting Apps: 13 aplicativos gratuitos, escritos do zero na linguagem Rust, que rodam no Mac, no Windows, no Linux e, quase todos, direto no navegador. Os repositórios foram criados entre 30 de setembro e 9 de outubro, todos ganharam versão nova em 14 de outubro, e o PhotoCraft sozinho já passou de 62 mil estrelas.

Os 13 Crafting Apps na página oficial do ArtCraft. Print sem tradução. Fonte: getartcraft.com/apps, 15/10/2026.
Os 13 Crafting Apps na página oficial do ArtCraft. Print sem tradução. Fonte: getartcraft.com/apps, 15/10/2026.

Eu e a IA mapeamos os 13, um por um, com o que cada um recria, o estágio e o que já funciona. Os percentuais são estimativas do próprio time, medidas por volta de 10 de outubro:

  • PhotoCraft · recria o Photoshop. Alfa, versão 0.9.0. Já abre, edita e salva arquivo PSD com camadas, e ao salvar de novo mantém a imagem de 307 dos 309 arquivos de teste. Tem camadas de ajuste, efeitos de camada e 27 modos de mesclagem. Pelas contas deles, cerca de 45% pronto pra trabalho real.
  • VectorCraft · recria o Illustrator. Alfa, versão 0.11.0. Caneta, Pathfinder, gradientes, texto em hebraico e árabe, e arquivos SVG, PDF, EPS e .ai compatível com PDF. Cerca de 88% dos menus e ferramentas do Illustrator existem, e eles estimam 65% pronto pro ilustrador comum.
  • FilmCraft · recria o Premiere Pro. Alfa, versão 0.8.0. Os codecs de vídeo (H.264, HEVC, ProRes) foram escritos por eles a partir das especificações públicas, e o decodificador H.264 bate bit a bit com o padrão em 37 vídeos de teste. Mais de 650 comandos que uma IA consegue acionar. Cerca de 56% pronto pra trabalho real.
  • LightCraft · recria o Lightroom. Alfa, versão 0.8.0. Revelação de foto RAW, balanço de branco, máscaras de céu e radial e catálogo com filtros. Cerca de 61% como substituto do Lightroom no dia a dia.
  • PdfCraft · recria o Acrobat. Alfa, versão 0.8.0. Ler, organizar, comentar, preencher e assinar PDF, tudo no seu computador, sem conta. Cerca de 55% do caminho pro uso do dia a dia; o ponto fraco declarado é converter de e pra Word.
  • EffectCraft · recria o After Effects. Alfa, versão 0.10.0, com o primeiro commit em 1º de outubro. São 306 efeitos, todos os 298 do After Effects e mais alguns, com expressões em JavaScript e fila de render. Ainda não abre projeto do After Effects. Cerca de 45% pronto pra trabalho real.
  • DesignCraft · recria o InDesign. Pré-alfa, versão 0.8.0. Já importa e exporta IDML, exporta PowerPoint editável e PDF pra gráfica. Cerca de 47% pronto pra trabalho real.
  • FigCraft · recria o Figma. Alfa, versão 0.6.0, o mais novo dos 13. Frames, auto layout, componentes, variáveis, protótipos e um modo dev que gera React. Arquivo .fig abre só no melhor esforço. Cerca de 49% do caminho pra substituir o Figma.
  • WordCraft · recria o Word. Alfa, versão 0.7.0. Lê e grava .docx, exporta PDF, tem mala direta, controle de alterações e sumário, e a interface já tem português do Brasil. Cerca de 60% do Word inteiro.
  • DeckCraft · recria o PowerPoint. Alfa, versão 0.7.0. Slide mestre, mais de 150 formas, transições incluindo a Morph, animações, áudio e vídeo. Cerca de 55% pronto pra trabalho real.
  • GridCraft · recria o Excel. Alfa, versão 0.7.0. São 513 das 523 funções de planilha do Excel, tabelas, formatação condicional e gráficos. Cerca de 50% pronto pra trabalho real.
  • CADCraft · recria o AutoCAD. Pré-alfa, versão 0.7.0. Linha de comando no estilo AutoCAD, os comandos básicos de desenho, cotas e arquivos DXF e DWG. Cerca de 38% pronto pra trabalho real.
  • SoundCraft · recria o Pro Tools. Pré-alfa, versão 0.7.0. Já grava, edita, mixa e exporta de ponta a ponta, com plugins e automação. Ainda falta escolher a interface de áudio e gravar MIDI. Cerca de 40% pronto pra trabalho real.

São sete programas da Adobe, três da Microsoft, o Figma, o AutoCAD e o Pro Tools. Pra instalar, eles têm um launcher que instala e atualiza todos e confere a impressão digital de cada arquivo antes de instalar.

A página do PhotoCraft: "o editor de imagem que você já sabe usar", gratuito e de código aberto. Print sem tradução. Fonte: getartcraft.com/apps/photocraft, 15/10/2026.
A página do PhotoCraft: "o editor de imagem que você já sabe usar", gratuito e de código aberto. Print sem tradução. Fonte: getartcraft.com/apps/photocraft, 15/10/2026.
O PhotoCraft se apresenta no GitHub como reimplementação "sala limpa" do Photoshop, em alfa. Print sem tradução. Fonte: github.com/storytold/photocraft, 15/10/2026.
O PhotoCraft se apresenta no GitHub como reimplementação "sala limpa" do Photoshop, em alfa. Print sem tradução. Fonte: github.com/storytold/photocraft, 15/10/2026.

Como os Craft foram feitos: a IA escrevendo

Cada repositório mantém a lista de quem escreveu o código, e nela tem uma seção só pros modelos de IA. Em todos os 13, entre os modelos, quem mais aparece é o Claude Opus 5.5. No PhotoCraft, ele está em 736 dos 1.302 commits. No VectorCraft, 787 de 906. No LightCraft, 747 de 1.033. No FilmCraft, 602 de 812. No EffectCraft, 603 de 656. O FigCraft tem 82 commits, 81 com o Opus 5.5 e só duas pessoas.

No planejamento do DesignCraft eles chegam a estimar o que falta até a versão beta em horas de agente: de 420 a 750 horas do Opus 5.5. É um time estimando trabalho em horas de IA. Isso aqui muda o jogo.

E a regra que eles escreveram pra gente e pra IA é a de sala limpa, a mesma da Phoenix. No LightCraft, a primeira regra pra quem contribui é nunca ler os binários da Adobe e trabalhar só a partir de especificação pública e de observação de fora. No PhotoCraft, eles estudaram o Photoshop pelo comportamento e pela aparência, e só isso: nada de código, perfil de cor, ícone, fonte ou preset da Adobe. No PdfCraft, o comportamento vem da norma ISO do PDF e de observação, nunca do código de outra pessoa.

A regra de "sala limpa" do LightCraft: nunca ler os binários da Adobe e nenhum asset da Adobe. Print sem tradução. Fonte: github.com/storytold/lightcraft, 15/10/2026.
A regra de "sala limpa" do LightCraft: nunca ler os binários da Adobe e nenhum asset da Adobe. Print sem tradução. Fonte: github.com/storytold/lightcraft, 15/10/2026.

Repara no contraste com o Wine. O Wine proíbe IA pra gerar código. Os Craft fizeram quase tudo com IA. Mas a régua dos dois é a mesma: não encostar no código dos outros.

E o REA nessa história? Nas redes, as duas histórias viraram uma só: o REA bombando e "recriaram a Adobe inteira com ele". Só que nos repositórios dos Craft não tem uma linha sobre o REA, e a regra de não ler os binários da Adobe vai no sentido contrário do que o REA faz, que é abrir o programa por dentro. O que existe é uma pergunta de um usuário, aberta no dia 12 de outubro no GitHub do ArtCraft, perguntando se o time usa ou pensa em usar o REA. Até hoje, sem resposta.

A pergunta sobre o REA no repositório do ArtCraft, aberta em 12/10 e sem resposta. Print sem tradução. Fonte: github.com/storytold/artcraft/issues/2223, 15/10/2026.
A pergunta sobre o REA no repositório do ArtCraft, aberta em 12/10 e sem resposta. Print sem tradução. Fonte: github.com/storytold/artcraft/issues/2223, 15/10/2026.

Na minha régua, os Craft são remix com tempero. Os menus e os atalhos estão onde a mão de quem usa Photoshop espera, de propósito, mas o código é deles, é de graça, roda no navegador e cada app vem com um servidor MCP pra sua IA mexer nele direto. E o nome da Adobe aparece só pra dizer com o que o app é compatível, com o aviso de que eles não têm relação nenhuma com a Adobe no rodapé de cada repositório.

Onde está a linha legal

Vou te dar o mapa do que a lei escrita diz, pra você saber onde pisa. E o lugar onde você está muda a conversa.

No Brasil. A lei do software, a 9.609 de 1998, diz que não ofende o dono de um programa a semelhança que vem das características funcionais da aplicação, de normas técnicas ou da falta de outro jeito de expressar a mesma coisa. A lei de direito autoral, a 9.610, faz responder por perdas e danos quem inutiliza a proteção técnica que impede a cópia de uma obra. E a lei de propriedade industrial, a 9.279, trata como concorrência desleal usar sem autorização informação confidencial a que você teve acesso por contrato ou emprego, ou que obteve de forma ilícita.

Nos Estados Unidos. Em 1992, no caso Sega contra Accolade, a Justiça considerou uso legítimo desmontar o código dos jogos da Sega pra fazer jogos próprios rodarem no console. Em 2000, no caso Sony contra Connectix, a mesma lógica protegeu um emulador de PlayStation. Em 2021 a Suprema Corte decidiu, por 6 a 2, que o Google reimplementar a interface do Java no Android foi uso legítimo. Do outro lado, a lei de direitos digitais de lá proíbe quebrar trava de acesso, com uma exceção específica pra quem precisa analisar um programa pra fazer outro conversar com ele.

Na União Europeia. A diretiva de programas de computador garante a quem tem o direito de usar um programa observar, estudar e testar como ele funciona pra entender as ideias por trás dele, sem pedir autorização. Descompilar só pode quando é indispensável pra fazer um programa independente conversar com outro, e a informação não pode servir pra fazer um programa substancialmente parecido na expressão. E o detalhe que eu acho mais forte: lá, cláusula de contrato que proíbe isso é nula.

Os termos de uso. Aqui entra a Adobe. Os termos gerais de uso dela, na seção 17, proíbem fazer engenharia reversa dos programas, e a definição deles inclui até monitorar o que entra e o que sai de um programa pra recriar o sistema. Pra quem aceitou esses termos, isso é contrato. Na Europa, essa parte do contrato esbarra na lei. Fora de lá, depende da lei de cada país.

A cláusula de engenharia reversa nos termos gerais de uso da Adobe (seção 17). Print sem tradução. Fonte: adobe.com/legal/terms.html, 15/10/2026.
A cláusula de engenharia reversa nos termos gerais de uso da Adobe (seção 17). Print sem tradução. Fonte: adobe.com/legal/terms.html, 15/10/2026.

Basicamente: parecer com outro programa porque faz a mesma coisa é uma conversa, quebrar trava, usar segredo dos outros e levar código ou conteúdo é outra. Se for lançar algo comercial em cima disso, passa por um advogado de propriedade intelectual antes.

O "clone da Netflix" que passou do ponto

O terceiro caso é o framextv.xyz. Rodou com a legenda de que alguém tinha feito a engenharia reversa da Netflix e do Prime e juntado tudo numa plataforma só, sem anúncio.

A interface tem mesmo cara de streaming grande: fundo preto, filme em destaque, fileiras de "em alta" e "populares". Só que o que ele faz por trás é outra conversa. Na tela de boas-vindas, o próprio site se descreve como streaming "descriptografado" de filmes, séries e anime. Na página técnica, explica que junta servidores de extração de vídeo de terceiros e oferece um código pra qualquer outro site embutir o player dele. Na home tem filme de 2026 que acabou de sair no cinema. E no topo, um botão pra comprar uma criptomoeda do site.

A tela de boas-vindas do framextv, que se descreve como streaming "descriptografado". Print sem tradução. Fonte: framextv.xyz, 15/10/2026.
A tela de boas-vindas do framextv, que se descreve como streaming "descriptografado". Print sem tradução. Fonte: framextv.xyz, 15/10/2026.
A home do framextv: interface de streaming, filmes de 2026 e o botão da criptomoeda no topo. Print sem tradução. Fonte: framextv.xyz, 15/10/2026.
A home do framextv: interface de streaming, filmes de 2026 e o botão da criptomoeda no topo. Print sem tradução. Fonte: framextv.xyz, 15/10/2026.

O domínio foi registrado no dia 5 de outubro e a conta dele no X, criada no dia 12. Não tem nome de autor em lugar nenhum, só uma dedicatória no rodapé, e não tem uma linha sobre como foi construído, nem sinal de que o REA tenha passado por ali. O Fazt, criador de conteúdo de programação, resumiu no X: é um agregador pirata recente, que embute streams não autorizados. E o site tem um bloqueio que apaga a página quando detecta as ferramentas de desenvolvedor do navegador.

Esse aqui não tem nada de remix. A cara de Netflix é a parte fácil. O problema é que o filme é dos outros, e o próprio site se vende como streaming descriptografado. É o exemplo perfeito do que não fazer, e é por isso que eu não vou colocar link pra ele aqui.

Até onde eu acredito que dá pra ir

O mercado de IA está avançando cada vez mais, eu falo disso faz tempo, e vai ser inevitável que sistema e aplicativo fiquem pra trás. O que esses casos mostram é que entender como um software funciona deixou de ser coisa de especialista. Agora é um pedido em português pra sua IA.

Pras empresas. Elas vão ter que se reinventar cada vez mais. A Adobe da vida vai ter que se reinventar pra que o usuário não queira sair de lá e simplesmente criar a própria plataforma, ou pegar a plataforma gratuita de alguém e usar. Treze apps em duas semanas, com a IA escrevendo boa parte do código, é o recado. Copiar o jeito de usar um programa ficou barato. O que segura o cliente agora é o que não dá pra copiar olhando de fora.

Pra quem cria produto. O jogo muda pros dois lados. Você consegue estudar qualquer referência que existe no mercado em uma tarde de conversa com a sua IA, e isso encurta muito o caminho. Eu sempre falo que boa referência antes da execução é o que mais faz diferença com IA. Só que o mesmo vale pro seu produto: o que está na tela pode ser estudado. Então o tempero passa a ser o produto. O que você entende do seu público, o que você junta que ninguém juntou, a velocidade com que você melhora.

A gente tem que usar a IA e as tecnologias que estão aí pra ter as nossas ferramentas e criar os nossos sistemas. Seja com engenharia reversa ou não. Sempre cuidando pra não cair no plágio.

O guia: o que eu acho que você deve fazer

  • Use pra entender a mecânica. A pergunta certa é "como esse app faz isso?", e você sempre pede a evidência junto. O REA devolve de onde tirou cada conclusão e o que ainda é suposição.
  • Estude o que é seu, o que é aberto ou o que você tem autorização pra examinar. Seu app, o app do seu cliente com ele sabendo, projeto de código aberto. É o uso que o próprio REA declara como legítimo.
  • Comece por fora. Antes de abrir qualquer coisa por dentro, descreva o comportamento: o que entra, o que sai, o que acontece na tela. Foi assim que a Phoenix, o Samba e os Craft fizeram.
  • Separe quem estuda de quem constrói. Use uma conversa com a IA pra entender e escrever a descrição do comportamento, e outra, do zero, só com essa descrição, pra construir. É a sala limpa da Phoenix, versão 2026.
  • Leve o comportamento e deixe o código. Entendeu o mecanismo, pede pra sua IA construir do zero, dentro do seu projeto e com a sua cara.
  • Traga o tempero. Alguma coisa que o original não faz. Os Craft fizeram isso sendo gratuitos, abertos, rodando no navegador e com a IA mexendo direto no app. O exemplo do dinossauro ganhou um controle de velocidade.
  • Use material aberto. Especificação pública, documentação oficial, ícones e fontes com licença livre. Anota de onde veio cada coisa, como os Craft fazem num arquivo só pra isso.
  • Baixe só das fontes oficiais. O GitHub morluto/rea, o site rea.tools e o pacote rea-agents no npm. O próprio LEIA-ME avisa que repositório com nome parecido ou LEIA-ME copiado não prova que o download é oficial.
  • Leia os termos de uso do programa que você vai estudar. Como você viu na Adobe, tem empresa que proíbe isso no contrato.
  • Nome, logo e identidade são seus. O nome do outro só pra dizer com o que você é compatível, e olhe lá.

E o que eu acho que você não deve fazer

  • Recriar igual e lançar. Pegar o Notion, mudar o nome e colocar no mercado é o trabalho do coleguinha copiado.
  • Copiar código, ícone, fonte, imagem ou preset do original. Nem os Craft, que recriam o Photoshop, encostam nisso.
  • Colar o código que a IA tirou de dentro do programa no seu produto. O que o REA devolve serve pra você entender. O próprio projeto lembra que ter um código parecido com o original na mão não te dá direito nenhum sobre ele.
  • Usar a marca do outro pra vender.
  • Quebrar proteção. Trava de cópia, checagem de licença, anti-trapaça de jogo, login de sistema que não é seu. O REA diz com todas as letras que não ajuda com nada disso e fecha sem resposta quem pede.
  • Distribuir conteúdo dos outros. É o caso do framextv.
  • Usar segredo que você conheceu por dentro. Código ou informação de empresa onde você trabalhou ou de cliente, sem autorização, é concorrência desleal.
  • Usar ferramenta paga pirateada. O Ghidra é gratuito; o IDA e o Hopper exigem licença de verdade, que o REA não fornece.
  • Jogar app de cliente ou da sua empresa sem combinar antes. A análise roda na sua máquina, mas o resultado vai pra sua IA, e o provedor do modelo tem a política de dados dele.
O aviso de uso responsável do REA: o que o projeto não apoia, de quebrar DRM a copiar software proprietário. Print sem tradução. Fonte: github.com/morluto/rea, 15/10/2026.
O aviso de uso responsável do REA: o que o projeto não apoia, de quebrar DRM a copiar software proprietário. Print sem tradução. Fonte: github.com/morluto/rea, 15/10/2026.

Antes de lançar o que você recriou

Marca aqui o que já está ok. O seu navegador lembra.

Pra começar hoje: o passo a passo

O site do REA tem um guia em português pra quem nunca abriu um terminal. Resumindo:

  • 1. Prepare o computador. Você precisa do Node.js, versão 22 ou mais nova. Se não sabe se tem, pede pra sua IA conferir; se não tiver, o guia oficial mostra o instalador pra Mac, Windows e Linux.
  • 2. Escolha o seu agente. Claude Code, Codex, Cursor e mais uma lista grande. É a IA com quem você conversa; o REA só entrega as ferramentas pra ela.
  • 3. Cola a instrução de instalação no agente. A do site oficial, em português: "Instale o REA e conecte-o a este agente de programação usando npx rea-agents@latest setup. Mostre primeiro as alterações propostas e espere minha aprovação. Depois, verifique a instalação." O REA mostra o plano, guarda uma cópia da sua configuração e só mexe depois que você aprova. Aprovou, reinicia o agente.
  • 4. Faça a primeira investigação. Escolhe um app que é seu ou um projeto de código aberto e pede: "entende como esse app faz [a função que você quer], me mostra a evidência e constrói uma versão minha disso no meu projeto".
A home do REA em português, com a instrução de instalação pra colar no agente. Print da versão em português do site oficial. Fonte: rea.tools/pt-BR, 15/10/2026.
A home do REA em português, com a instrução de instalação pra colar no agente. Print da versão em português do site oficial. Fonte: rea.tools/pt-BR, 15/10/2026.
O guia de configuração em português: prepare o computador, escolha um agente, conecte o REA e faça a primeira investigação. Print da versão em português do site oficial. Fonte: rea.tools/pt-BR/get-started, 15/10/2026.
O guia de configuração em português: prepare o computador, escolha um agente, conecte o REA e faça a primeira investigação. Print da versão em português do site oficial. Fonte: rea.tools/pt-BR/get-started, 15/10/2026.

Travou em algum passo? Manda a sua IA ler o guia oficial e te levar pela mão. O REA atualiza com frequência, então pra atualizar é só rodar a mesma instalação de novo. E se quiser tirar, pede pra sua IA desinstalar seguindo a documentação: o comando rea uninstall remove só o que é do REA.

O link oficial pra baixar e ler a documentação é o github.com/morluto/rea, o guia em português está em rea.tools/pt-BR e os Crafting Apps estão em getartcraft.com/apps, se você quiser ver de perto até onde dá pra chegar recriando com tempero.

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